sábado, 5 de janeiro de 2013

Deixa ir embora

Esse texto resume vários "SENTIR"!         Significativo...



Achava que amava as pedras e por isso senti uma pontada forte no coração vendo as pedras coloridas que eu amava rolarem penhasco abaixo. Imediatamente, um olhar interior de profundo lamento invadiu meu ser. Afinal, colecionei aquelas pedras durante tanto tempo... Cada pedra chegava para mim como uma mensagem e eu gostava de imaginar que cada uma simbolizava uma pessoa importante na minha vida. Eu possuía pedras de todas as cores, com todas as características, lisas, furadas, arranhadas, polidas, com rajadas múltiplas de tons..., algumas muito antigas, magmáticas, metamórficas, nascidas em tempos imemoriais, outras sedimentares, acumulando passagens alheias, agarrando coisas que o vento trazia e somando, somando todos aqueles acúmulos de tempo na superfície de si, passando a existir em camadas.

Admirava todas por permanecerem, por permanecerem. As pedras sempre me fascinaram, porque estive em meus processos e relacionamentos envolvida com excessos de apego e qual símbolo de permanência seria mais poderoso do que uma pedra? Cultivava um jardim de pedras com o mesmo zelo e entrega que um jardineiro cuida de suas flores. Mas o jardineiro é bem mais bonito do que eu, porque sabe da efemeridade do jardim. Prepara a terra para receber as sementes, as sementes brotam e as flores aparecem, lindas, coloridas e transitórias. Com o tempo inevitavelmente fenecerão. Mas enquanto estiverem vivas, ele cuidará delas, para que se sintam “únicas no mundo”, como a rosa que o principezinho de Exupéry tanto amava.

Em meus percursos tive dificuldade em aceitar que as coisas acabem, que ciclos se fechem, que as pessoas que amo me deixem. Tive apego pelo outro. Mas a aceitação inevitável é que o outro é livre em seus caminhos, e que deixar quem se ama ir embora faz parte da tessitura do viver. O segredo é aprender a viver o momento, ter o olhar da inocência diante do que está colocado tão evidente para nós, mas que ainda não conseguimos ver: a grandeza de viver o invisível.

Chovia intenso, as gotas caíam grossas, lavando as pedras, mas o ar naquele dia de chuva vibrava diferente, como se afastasse de mim as noções fixas que tenho das coisas. Senti falta de flores no meu jardim. Recolhi todas as pedras, coloquei-as em uma mochila e carreguei esse peso nas costas até a beira de um penhasco. Então minhas pedras rolaram penhasco abaixo para o fundo de algum lugar que suporte melhor o peso delas. Não quero mais essa permanência, ela pesa demais para ombros humanos, e o que permanece em nós não precisa ser assim, tão pesado. Quero aprender a cuidar de um jardim, aprender a me relacionar como o jardineiro se relaciona com suas flores, aprender a amar mais do que sou amada, para que, desapegada de seguranças, sinta realmente o que permanece, o que fica gravado em nós nessa arte de amar e viver.

Enquanto sentia a libertação do peso das pedras que carregava, um passarinho pousou no meu ombro. E então amei aquele ser em movimento mais do que amei qualquer outro ser, como o príncipe ama sua flor eu amo meu pássaro, porque ele não é meu, é livre como eu quero ser, e voando e voltando pra mim ele vem me ensinando o que é o amor e em seus vôos sempre me entrega uma semente que, com o tempo, se transforma em flor.

O amor, quando é amor, tem asas e constrói jardins.

(Autor desconhecido)

Um comentário:

  1. Camila, que postagem linda! Lí e reli e me senti alimentado por novos e reais valores. Muito linda a sua escolha.
    Um beijo semeado no seu coração.
    Manoel

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